Segundo o psiquiatra e professor da UNICAMP, Neury Botega, uma crise suicida pode acontecer quando há́ piora de algum transtorno mental já́ existente ou depois de um evento muito doloroso (términos de relacionamento, desemprego, luto, situação de estresse muito grande, etc.). Em qualquer situação, essa crise é vivenciada como um colapso existencial, a dor psíquica (emocional) é tão intensa que chega a ser intolerável, e a consequência disso é tentar interromper por meio da aniquilação da vida. Isso pode acontecer porque a pessoa sente que não é mais capaz de manter o controle da própria vida.

Falar de suicídio é extremamente controverso e paradoxal, pois acabamos por abordar dois assuntos “tabus”: morte e saúde (ou adoecimento) mental. Em nossa sociedade e cultura não é fácil falar que iremos morrer, que pessoas que amamos irão morrer…imagina falar que alguém que amamos pode pôr fim à própria vida porque está EMOCIONALMENTE adoecido? Não queremos lidar com isso… mas precisamos.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa se suicida no mundo, isso é muito sério!!! Em uma hora, 90 pessoas tiraram a própria vida em algum lugar do mundo. Se você̂ demorar 5 minutos para ler este texto, pode ser que pelos menos 7 pessoas já́ tenham se matado.

O meu objetivo aqui é alertar para a importância de conversarmos sobre o suicídio. A melhor chance de quem está́ pensando em se matar são as pessoas que não estão. Como assim? Explico…se você̂ está emocionalmente mais estável que alguém que pensa em se matar, é você̂ quem poderá́ perceber possíveis sinais que poderão salvar a vida dessa pessoa. Alguns sinais são muito óbvios, outros nem tanto.

Nos sinais óbvios é possível notar que a pessoa:

1) Se isola;

2) Muda de repente de humor ou de hábitos;

3) Piora o desempenho em atividades rotineiras;

4) Descuida da aparência e até́ da higiene;

5) Muda seu padrão de sono (dorme demais ou tem insônia);

6) Faz comentários ruins sobre si;

7) Expressa indireta ou diretamente que quer morrer;

8) Fala sobre morte ou pessoas que já́ morreram (principalmente se a causa foi suicídio) entre outros sinais claros e concretos.

Entretanto, alguns sinais são muito sutis. É muito difícil de perceber um risco de suicídio quando a pessoa está́ aparentemente bem ou quando há́ uma melhora significativa e até́ uma calma repentina. Nesses momentos, o perigo pode estar instalado. Você̂ pode pensar: Ué, mas não é isso que esperamos? Que a pessoa melhore e fique bem? Devo me preocupar com isso também?

Então, claro que queremos que aquela pessoa que estava visivelmente sofrendo melhore, mas vamos pensar juntos? Se a situação que estava provocando sofrimento não se resolveu, se a pessoa não procurou ajuda ou procurou tem pouquíssimo tempo, como que ela pode ter melhorado tanto? Já́ se sabe que quando essa melhora repentina acontece, em muitos casos, tem relação com uma decisão secreta e íntima de se matar, a pessoa pode já́ ter certeza disso e já́ até́ planejou como e quando… e isso traz alívio e até́ uma sensação de prazer e ela não irá querer demonstrar isso para que ninguém a faça desistir.

Entretanto, é possível perceber esses sinais quando a pessoa:

1) Fica mais afetuosa do que estava;

2) Busca rever pessoas que há muito tempo não via;

3) Promove momentos felizes com quem ama e se importa (confraternizações, reuniões)

4) Fala coisas bonitas, com palavras de afeto e gratidão para pessoas significativas;

5) Se reconcilia com Deus, busca a fé́ caso a tenha perdido;

6) Resolve questões pendentes, faz as pazes com alguém ou finaliza um projeto no trabalho ou escola;

7) Resolve questões financeiras;

8) Faz seguros de vida, entre outras situações.

Vale ressaltar que nem todos esses sinais são necessariamente ruins ou alarmantes, podem ser genuínos e de significativa melhora, mesmo assim, quando repentinos, podem ser sinais de que a pessoa decidiu pelo suicídio e está́ querendo “deixar as coisas organizadas” antes de partir. Esses momentos merecem atenção, ainda não é hora de baixar a guarda.

Perceber que alguém que a gente ama tem ideação suicida (ideias ou até o planejamento de se matar) não é fácil mesmo. Fique de olho nos sinais, se o humor está diferente, se você percebe que essa pessoa não está como sempre foi, se alguma coisa no seu coração diz que tem algo ruim acontecendo com ela, se mantenha por perto.

Se você̂ tem alguém próximo que pensou/pensa em se matar, lembre-se que cobrar melhoras, tratar a pessoa como criança ou incapaz ou desistir de ajudar e se afastar pode colocar tudo a perder. Lidar com uma pessoa potencialmente suicida é difícil mesmo, mas saiba que você̂ pode ofertar compreensão e apoio, permanecendo ao lado da pessoa, mesmo que em silêncio, sugerir tratamento psicológico e psiquiátrico e até́ se oferecer para ir junto nas primeiras consultas, lembrar, com delicadeza, de momentos de conquistas e superação, enfim.

Se você̂ pensou/pensa em suicídio saiba que é possível transformar esse sofrimento e dar um novo sentido para a vida. Busque ajuda, fale sobre. Em situações de emergência ligue para o CVV (188), busque ajuda de profissionais também, psicólogos e psiquiatras. Se tem vida, tem jeito!

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