Eu não quero ser mãe! Disse-me a paciente aos prantos. Chorava compulsivamente na tentativa, quem sabe, de fazer escorrer pelos olhos a culpa e o peso que carregava o ressoar de suas palavras. Colocar-se diante de si e dizer “eu não quero”, quando a sociedade espera que você queira, não é nada confortável.

Em um passado não tão distante, o papel da mulher estava ligado aos cuidados com lar, casamento e filhos. Com as funções e expectativas sociais direcionadas, seria inevitável não se dedicar à maternidade e lhe conferir um lugar simbólico de grande importância. A questão é que, por muitos anos ser mãe esteve no topo das realizações femininas, quase como uma imposição. Uma equação indissociável, mulher = mãe. Esperava-se e ainda espera-se que as mulheres decidam por ter filhos, fazendo valer seu instinto maternal. De preferência, sorrindo, cantando, lindas e alegres enquanto trocam fraldas e se desdobram em educar sozinhas seus filhos.

A sociedade empurra a mulher à maternidade. Das brincadeira na infância à romantização da maternidade, tudo conduz a esse destino. As mães das propagandas, da tevê, do cinema e da internet, muitas vezes, aparentam viver em estado de quase perfeição. Atribuir à maternidade o status de ser um momento sublime, apenas de ganhos, sem considerar os atravessamentos humanos de dor, dúvidas e perdas, é criar uma fábrica de mães frustradas. As mulheres se sentirão incessantemente aquém de uma expectativa totalmente ilusória, impossível de atender. Em muitos casos, chegam desavisadas a esse terreno e descobrem que as intercorrências e sensações de uma gravidez nada se parecem com algo sublime ou mágico. Em outros casos, o nascer do filho provoca na mulher uma sensação de perda, de esvaziamento, no lugar da ideia de “preencher” o que faltava. O resultado é o arrependimento. Isso mesmo, mães também se arrependem. Se hoje falar sobre arrependimento na maternidade ainda é assunto obscuro, imagina há 50 anos! (Fico imensamente feliz em poder escrever esse texto). Atribui-se o arrependimento ao fracasso ou ao acometimento de algum crime, e teoricamente, esse sentimento jamais poderia vir de alguém que gerou uma vida. Falar sobre arrependimento é reconhecer que mães são humanas.  Escutá-las parece um bom caminho para se pensar a decisão de ser ou não ser mãe. É melhorar o terreno vindouro para que outras gerações de mulheres possam fazer escolhas sem que sejam chicoteadas por isso. Pois, ainda hoje, quando uma mulher diz não querer ter filhos é logo rotulada como alguém fria e egoísta.

A propagação da maternidade idealizada faz esse desfavor às mulheres, em nada contribui para que consigam fazer, em alguma medida, uma diferenciação do que é seu querer daquilo que elas acreditam que esperam delas. Todas essas expectativas familiares e sociais dificultam o pensamento reflexivo mais livre, ou seja, generalizam e inibem o pensamento que leva em consideração as particularidades e a variedade de identidades, desejos e necessidades de cada mulher – o que cada uma necessita e considera importante para sua felicidade. Por outro lado, o desejo à maternidade resiste, e muitas mulheres querem genuinamente atravessar essa experiência. Para a Psicanálise, há uma motivação inconsciente na decisão de ter filhos que emerge para resgatar um desejo antigo. Um desejo de completude. Sabe aquela história de que algo falta? Passa por aí… É justamente nessa porta que o desejo bate. O desejo de ter filhos está ligado também a “possibilidade” da imortalidade pela perpetuação de seus genes, através de uma possível anulação metapsicológica da morte pela qual a continuidade da vida poderia ocorrer. É um brincar de ser eterno!

Entre ser ou não ser mãe, algo aparece como urgência ao saber feminino: ao invés de sobrepor a mãe à mulher, talvez seja importante separá-la. Ser mãe ou não sê-la, não exclui a mulher de suas outras inúmeras possibilidades. Não a anula para outras conquistas, outros projetos, outras tantas formas de existir. E o mais importante, nada disso a exclui de seu lugar feminino.

Pensar em si, fazer escolhas, deve ser um direito da mulher. Será bonito o dia em que a mulher poderá ser livre e decidir SER OU NÃO SER MÃE, QUANDO E QUANTOS FILHOS TER, sem que ninguém a faça parecer errada em suas escolhas. Será bonito o dia em que enxergarem a maternidade não como um destino, mas como uma escolha oportuna. Pois ninguém conhece mais os sonhos e necessidades do que o próprio sonhador.

E você como tem lidado com as escolhas de sua vida? Deixe aqui seu comentário, vamos achar juntos uma solução!

Até a próxima leitura, amigos!

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