O sofrimento ‘por tabela’

É muito possível que você tenha alguém, próximo ou nem tanto, que tenha depressão. Se acha que não, pode ter convivido e não sabe, já que muita gente não é diagnosticada ou até é e não se sente à vontade para expor isso. Ou, você pode até ser a pessoa que tem depressão e não consegue explicar muito bem como se sente e o que precisa. Se você faz parte de algum desses grupos (e eu acho que você faz!), esse texto é pra você!

 

Se você faz parte do grupo que nunca passou pelo sofrimento da depressão, é interessante que tenha pelo menos um pouquinho de noção do que essas pessoas sentem. Lidar com uma pessoa em depressão pode te deixar sentindo perdido e, muitas vezes, sem saber o que fazer. Nessas horas, tentar colocar-se no lugar do outro em algum nível é a melhor carta na manga a qual você pode recorrer.

 

A tristeza é só uma das faces da depressão. Na verdade a sensação de uma pessoa em depressão é um mosaico de angústia, vazio, desesperança, desespero, ansiedade, apatia, desmotivação e várias outras. Tudo isso junto, em fases, em ondas. Gosto da metáfora da trepadeira pra dar uma ideia.

 

Imagina uma árvore grande, vistosa e saudável. Uma trepadeira vai crescendo aos poucos, tomando conta de seu tronco devagarinho, tornando-se o contorno da estrutura. Com o tempo, a trepadeira sufoca toda a árvore de forma que não dá pra saber qual parte é arvore ou trepadeira. Assim é a depressão.

 

“Ela (a depressão) me sugou, uma coisa que se embrulhara à minha volta, feia e mais viva do que eu. Com vida própria, pouco a pouco asfixiara minha vida. No pior estágio de uma depressão severa, eu tinha estados de espírito que não reconhecia como meus; pertenciam à depressão […]” (Solomon, 2014, p. 18)

 

Imagina ser sugado, dominado, espremido. Imagina perder suas energias e até a noção de quem se é, diante de tanta confusão de sentimentos! Perturbador, né?

 

E você que tem um familiar, um amigo ou um colega de trabalho que está nessa situação, como você fica diante desse cenário?

 

Sem dúvida existe um sofrimento de quem convive e cuida das pessoas com depressão, e ele nem sempre é reconhecido. É inegável a resiliência, sensibilidade e disposição necessárias. Assim como na maioria dos transtornos emocionais, os sintomas da depressão têm efeitos que desestabilizam o ambiente e as relações da pessoa deprimida. Ao mesmo tempo, esses dois são importantes fatores que podem facilitar o tratamento e promover a saúde de quem está com depressão. Como equilibrar esses aspectos?

 

“Quando você está deprimido, precisa do amor de outras pessoas e, no entanto a depressão provoca ações que destroem esse amor. Os deprimidos geralmente enfiam alfinetes em seus próprios botes salva-vidas.” (Solomon, 2014, p.106)

 

Quando digo que as relações podem ser afetadas, quero dizer que elas podem ganhar aspectos que nunca existiram antes ou que nunca foram tão perturbadores. A irritabilidade pode tornar-se freqüente; brigas e respostas ríspidas podem ser uma manifestação da agressividade aumentada. Relações podem esfriar ou até acabar como um sintoma do distanciamento e indiferença da pessoa deprimida. Palavras fortes e duras podem ser ditas com intensidade extrema. Assim, com vários alfinetes, quem está em depressão vai furando seus botes de esperança de relações saudáveis.

 

Se você é a pessoa que convive com um deprimido que pode estar destruindo o amor que ele precisa receber, ouça um conselho: CUIDE DE VOCÊ.

Você precisa estar disponível e emocionalmente bem para lidar com os altos e baixos dessa doença. Pode ser que você precise ouvir muito o outro, pode ser que seja necessário dar banho nele e alimentá-lo (sim, literalmente!) ou ‘apenas’ observá-lo atentamente e perceber suas fases e estados de humor.

 

Independente dos tipos de ajuda que você precisar oferecer e do cansaço que sentir, saiba que a pessoa não age dessa forma porque quer, ela não tem controle (e às vezes nem muita consciência) sobre grande parte das reações que tem. Assim como quem está gripado não tem domínio sobre o nariz escorrendo e sobre a tosse persistente.

 

Não culpe a pessoa deprimida pelo estado em que está. Tenha cuidado pra que comentários aparentemente inocentes não dêem essa impressão. Incentive que ela siga o tratamento, acompanhe o andamento dele. Tenha consciência de que a doença tem fases. Existem momentos bons e ruins dos sintomas, é comum. Você não tem a responsabilidade nem o poder de curar a pessoa que tanto ama.

 

Procure informações sobe a doença, informe-se bem. Estratégias simples podem ajudar bastante nos altos e baixos. Entenda as baixas como períodos de aprendizado para encontrar ferramentas úteis para crises. Acima de tudo seja humano, acolha, esteja lá. Em muitos momentos não há muito o que fazer além de mostrar interesse, reconhecer o sofrimento do outro sem julgar, dar validade ao que ele sente.

 

É inegável que acompanhar alguém em estado de depressão é uma situação delicada, desafiadora e cansativa. Podem ter momentos que você pensa em desistir, abandonar aquela relação ou se afastar. Você sempre tem essa opção, é verdade. Mas, empatia; cuidado e persistência são poderosos recursos que temos, diante de taxas altíssimas de suicídio, para tentar diminuir mais perdas irreversíveis e evitáveis.

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